
Mercado de apostas ilegais movimenta mais de R$ 1 bilhão por mês no Brasil
Apesar da regulamentação do setor de apostas esportivas ter entrado em vigor no Brasil no início de 2025, o mercado ilegal ainda domina uma parcela significativa da atividade no país. De acordo com André Gelfi, diretor do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), aproximadamente 60% das apostas realizadas no Brasil ocorrem em plataformas sem licença para operar, gerando um faturamento mensal superior a R$ 1 bilhão.
Para Gelfi, que foi entrevistado pelo site Poder360, a formalização do setor é um dos maiores desafios da indústria, já que a existência de empresas clandestinas compromete a arrecadação tributária e dificulta o desenvolvimento de um ambiente competitivo e sustentável. Ainda assim, o executivo considera que o novo marco regulatório estabelece bases modernas para a legalização das apostas, permitindo um mercado mais equilibrado.
Diante da crescente presença de sites ilegais, o governo federal tem adotado medidas para coibir a atuação dessas plataformas. Uma das estratégias implementadas foi o bloqueio de domínios irregulares, resultando na derrubada de 11.555 sites até fevereiro de 2025. No entanto, especialistas do setor avaliam que a fiscalização precisa ser ampliada, especialmente no controle de transações financeiras realizadas via Pix.
Na entrevista, Gelfi destaca que o monitoramento dos pagamentos pode ser uma ferramenta eficiente no combate à ilegalidade. Segundo ele, identificar as movimentações financeiras feitas por empresas sem licença poderia limitar suas operações e reduzir o alcance desse mercado clandestino. Além disso, ele defende o direito à publicidade apenas para empresas devidamente regulamentadas, como forma de desestimular a promoção de apostas ilegais.
Outras modalidades e os contratos milionários
O debate sobre a legalização do setor de jogos no Brasil também envolve outras modalidades além das apostas esportivas. Em relação ao jogo do bicho, o IBJR não tem um posicionamento formal, mas Gelfi acredita que, caso a atividade traga benefícios à sociedade e possa ser regulada de maneira adequada, sua legalização deve ser considerada.
A crescente presença das casas de apostas no futebol brasileiro tem gerado questionamentos sobre os valores envolvidos nos patrocínios a clubes. Para Gelfi, os contratos atuais estão acima do nível considerado sustentável, e o mercado deve passar por uma correção nos próximos anos, ajustando os investimentos para patamares mais equilibrados.
Confira abaixo, na íntegra, a entrevista de André Gelfi ao Poder360:
O papel do IBJR
Criado em março de 2023, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável representa cerca de 75% do mercado regulamentado de apostas no Brasil. A entidade reúne grandes operadoras do setor, como Bet365, Betsson Group, Entain, Flutter, Kaizen Gaming, KTO Group, BetMGM, Novibet e Skill OnNet. Seu principal objetivo é contribuir para o desenvolvimento de um ambiente regulado e responsável para as apostas online no país, promovendo maior conscientização sobre o setor.
Opinião
É impressionante como, mesmo com a regulamentação das apostas esportivas no Brasil, o mercado ilegal continua prosperando de forma alarmante. Os números citados por André Gelfi não deixam dúvidas: mais de R$ 1 bilhão circula mensalmente em plataformas sem licença, um valor que escancara o tamanho do problema e a dificuldade em combatê-lo.
O mais assustador é perceber que esse cenário não se trata de um mero detalhe à margem da regulamentação, mas sim de uma parte dominante do setor. Se 60% das apostas ainda acontecem fora do circuito legal, significa que, apesar dos avanços, ainda estamos muito longe de ter o controle efetivo desse mercado. É como se estivéssemos tentando encher um balde furado – fechamos uma brecha aqui, mas logo outra se abre, alimentando um sistema paralelo que segue sem monitoramento e sem contribuição fiscal.
As medidas adotadas pelo governo, como o bloqueio de domínios ilegais, são um passo importante, mas claramente insuficiente. Afinal, se o faturamento dessas empresas continua na casa do bilhão, fica evidente que os mecanismos de fiscalização ainda estão falhando. Como o próprio Gelfi aponta, o monitoramento das transações financeiras pode ser um caminho mais eficaz para fechar o cerco contra essa informalidade. E faz sentido: se o dinheiro é o combustível dessas operações, cortar esse fluxo pode ser a estratégia mais certeira para frear sua expansão.
O que fica claro é que ainda há muito trabalho pela frente. A regulamentação foi um passo fundamental, mas o desvio de rota do mercado de apostas segue preocupante. Enquanto houver brechas, a ilegalidade continuará se reinventando – e só uma fiscalização mais rigorosa, aliada a um esforço constante de adaptação, será capaz de conter esse jogo que, por ora, parece estar sendo vencido pelo lado clandestino.
Sérgio Ricardo Jr